domingo, 2 de agosto de 2009

Bonito é ser Feio II – Outro e-mail para Juca Kfouri

Um e-mail para Juca Kfouri sobre a coluna “Jesus é uma farsa! ”


Prezado Juca Kfouri,

Li sua coluna “Jesus é uma farsa!(1) em resposta às mensagens recebidas pela anterior coluna “Deixem Jesus em Paz(2). Grande parte de sua coluna sequer tocou nos pontos em que lhe explanei*. Por exemplo, não comparei a manifestação religiosa à manifestação de preferência por uma marca de cerveja, comparação que particularmente acho sem sentido. Comparei, sim, às expressões de afeto entre pessoas [um jogador e sua esposa], ainda que supostamente eu acreditasse que uma fosse fictícia.


Sobre a parte de sua tentativa de cercear a liberdade religiosa, posso dizer que também não o acusei de fazer isso diretamente, mas, sim, que sua coluna contém um certo ranço para cercear a liberdade de expressar as crenças religiosas, para que não haja manifestações de qualquer tipo no campo de futebol. E isso se dá pouco tempo depois das reclamações de algumas associações européias pela manifestação religiosa dos jogadores da seleção brasileira após o apito final da Copa das Confederações.
Concordo que se deva evitar exageros em campo, mas sua coluna é contra qualquer manifestação religiosa – mesmo as mais modestas como apontar para o céu. Essa sua ojeriza exagerada, usando de sua influência para fazer como que uma espécie de campanha pelo fim delas em campo, embora não o torne o executor da medida, o torno [um apoiador] de medidas que cerceiam a liberdade [de expressão - pelo menos em campo] .


As religiões são formadoras de civilizações e por este motivo as manifestações religiosas nem sequer se comparam de longe a merchan de cerveja ou de qualquer outro produto. É tão diferente que a comparação feita se torna pueril. Espero que o senhor sendo jornalista - que deve saber o mínimo de história - não concorde com quem apresente um tão estúpido argumento: Se não pode merchan de produtos, não pode manifestação religiosa.


Em meu último e-mail não coloco em pé de igualdade as manifestações religiosas com as taras sexuais, mas, sim, por uma ser tão superior a outra - pois está na base de nossa civilização – que não deveria haver esta virulência ao querer restringi-las de supostos lugares inadequados, ao mesmo tempo em que se permite - achando lindo e belo - a manifestação sexual em local obviamente inadequado. E novamente digo: “... Se é certo que o campo de futebol não é templo religioso, muito menos é Avenida Paulista cama de motel e boate gay...” No entanto, sua indignação é maior com os religiosos, pois um olhar e mãos para o céu, um “Obrigado Senhor Jesus”, ou um “Jesus me ajudou”, já basta para incitar a sua irritação. É tão grande a inversão dos valores que me espanta o senhor não se dar conta disso. Não estou dizendo que o senhor apóia a Parada Gay, mas o seu silencio respeitoso diz muito.


Finalizando, quero dizer que as manifestações religiosas jamais atrapalharam o andamento do jogo, pois geralmente ocorrem após um gol ou após o final da partida. Usar o argumento de preservar o jogo, de fato, não procede. Usar o argumento de preservar os religiosos dos hereges também não procede, pois o suposto herege estaria com a clara intenção de ofender um religioso, assim como se entrasse com uma camiseta ofendendo a esposa do jogador que beija a aliança. Este seu exemplo mostra que a manifestação religiosa não se compara a merchan, pois pouquíssimas pessoas, talvez ninguém, ficaria ofendido com dizeres “Cerveja é uma farsa”. Claro, o senhor é ateu, na sua mente chamar Deus de farsa [seria curioso e] bonito, agradecê-lo por coisas boas é extremamente irritante. Francamente, pensei que, pelo senhor ser um formador de opinião, pensasse melhor antes de escrever, mas parece que Juca Kfouri é uma farsa.

______________________________________________________________

(1) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 02 de Agosto de 2009
(2) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 30 de Julho de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Bonito é ser Feio – Um e-mail para Juca Kfouri

Um e-mail para Juca Kfouri sobre a coluna “Deixem Jesus em Paz”


Prezado Juca Kfouri,

Acabo de ler a sua coluna “Deixem Jesus em Paz(1) e me confesso espantado pela sua indignação para com os jogadores que apontam agradecidos para o céu pelo Gol feito, ou dos goleiros pelo Gol não feito. Ainda mais espantado fiquei com a sua menção ao ideólogo comunista Antonio Gramsci. Não quero com este e-mail discutir e dizer que Gramsci é um ideólogo da vigarice, mas apenas mencionar meu espanto ao mencioná-lo como um pensador quiçá benéfico.

Não consigo perceber como pode ser irritante uma pessoa religiosa apontar para o céu em agradecimento pela alegria que sente. Assim como não acho irritante quando um jogador beija a aliança, dedicando seu feito à sua amada. Será que ele está tentando nos impingir seu amor em nossas goelas abaixo? Ainda que eu não acreditasse que a sua amada existisse – o que seria um tanto excêntrico, mas não irritante – nunca o poderia recriminar, quase o proibindo de fazer tão “odioso” gesto. E ainda que os ritos de amor sejam mais bem expressos entre quatro paredes, um beijo para a câmera é inocente e carinhoso para quem o recebe em frente à TV, e, embora não seja para mim – graças a Deus! – não me irrita, nem me constrange.

Poderia dizer o mesmo sobre o alimento; assim como a comida que desfrutamos num restaurante vem das mãos dum garçom e não de Deus, assim também o Gol vem de pés humano. No entanto, os religiosos agradecem pelos dois, agradecem pelas coisas boas que têm em suas vidas, mas quanto às coisas ruins, esperam pacientemente, trabalhando para a situação se inverter. Olhar para o céu agradecendo é tão inocente que não consigo entender a sua irritação.

O que acho mais estranho é que o senhor não é único que pensa assim, pois muitos ao mesmo tempo em que recriminam os olhares e mãos dos jogadores para o céu, consideram a mais pura normalidade, belo, símbolo da tolerância, quando na Parada Gay alguns milhares – talvez milhões - de homens barbados e bombados com roupas de Tiazinha, Madona e Britney Spears, e mulheres com pose de Rambo e Schwarzenegger, saem pela Avenida Paulista beijando-se, mostrando as nádegas peludas, esfregando o falo e os seios uns nos outros em plena luz do dia.

É certo que o senhor é comentarista esportivo, mas jamais o ouvi falar sobre essas coisas publicamente, embora já tenha falado em público sobre assuntos que não tratam de futebol. Se é certo que o campo de futebol não é templo religioso, muito menos é Avenida Paulista cama de bordel e boate gay.

Devo dizer, finalizando, que todo o seu texto tem uma certa coerência dentro de um esquema mental, pois refletem o pensamento de quem se propôs ateu, leitor de Antonio Gramsci, ou ateu em pele de agnóstico.

Espero que o senhor dê atenção a este pequeno comentário e reflita sobre sua posição. Não se irrite com os meninos que só querem dizer: Obrigado Senhor Jesus!
______________________________________________________________

(1) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 30 de Julho de 2009