Um e-mail para Juca Kfouri sobre a coluna “Jesus é uma farsa! ”
Prezado Juca Kfouri,
Li sua coluna “Jesus é uma farsa!”(1) em resposta às mensagens recebidas pela anterior coluna “Deixem Jesus em Paz”(2). Grande parte de sua coluna sequer tocou nos pontos em que lhe explanei*. Por exemplo, não comparei a manifestação religiosa à manifestação de preferência por uma marca de cerveja, comparação que particularmente acho sem sentido. Comparei, sim, às expressões de afeto entre pessoas [um jogador e sua esposa], ainda que supostamente eu acreditasse que uma fosse fictícia.
Sobre a parte de sua tentativa de cercear a liberdade religiosa, posso dizer que também não o acusei de fazer isso diretamente, mas, sim, que sua coluna contém um certo ranço para cercear a liberdade de expressar as crenças religiosas, para que não haja manifestações de qualquer tipo no campo de futebol. E isso se dá pouco tempo depois das reclamações de algumas associações européias pela manifestação religiosa dos jogadores da seleção brasileira após o apito final da Copa das Confederações.
Concordo que se deva evitar exageros em campo, mas sua coluna é contra qualquer manifestação religiosa – mesmo as mais modestas como apontar para o céu. Essa sua ojeriza exagerada, usando de sua influência para fazer como que uma espécie de campanha pelo fim delas em campo, embora não o torne o executor da medida, o torno [um apoiador] de medidas que cerceiam a liberdade [de expressão - pelo menos em campo] .
As religiões são formadoras de civilizações e por este motivo as manifestações religiosas nem sequer se comparam de longe a merchan de cerveja ou de qualquer outro produto. É tão diferente que a comparação feita se torna pueril. Espero que o senhor sendo jornalista - que deve saber o mínimo de história - não concorde com quem apresente um tão estúpido argumento: Se não pode merchan de produtos, não pode manifestação religiosa.
Em meu último e-mail não coloco em pé de igualdade as manifestações religiosas com as taras sexuais, mas, sim, por uma ser tão superior a outra - pois está na base de nossa civilização – que não deveria haver esta virulência ao querer restringi-las de supostos lugares inadequados, ao mesmo tempo em que se permite - achando lindo e belo - a manifestação sexual em local obviamente inadequado. E novamente digo: “... Se é certo que o campo de futebol não é templo religioso, muito menos é Avenida Paulista cama de motel e boate gay...” No entanto, sua indignação é maior com os religiosos, pois um olhar e mãos para o céu, um “Obrigado Senhor Jesus”, ou um “Jesus me ajudou”, já basta para incitar a sua irritação. É tão grande a inversão dos valores que me espanta o senhor não se dar conta disso. Não estou dizendo que o senhor apóia a Parada Gay, mas o seu silencio respeitoso diz muito.
Finalizando, quero dizer que as manifestações religiosas jamais atrapalharam o andamento do jogo, pois geralmente ocorrem após um gol ou após o final da partida. Usar o argumento de preservar o jogo, de fato, não procede. Usar o argumento de preservar os religiosos dos hereges também não procede, pois o suposto herege estaria com a clara intenção de ofender um religioso, assim como se entrasse com uma camiseta ofendendo a esposa do jogador que beija a aliança. Este seu exemplo mostra que a manifestação religiosa não se compara a merchan, pois pouquíssimas pessoas, talvez ninguém, ficaria ofendido com dizeres “Cerveja é uma farsa”. Claro, o senhor é ateu, na sua mente chamar Deus de farsa [seria curioso e] bonito, agradecê-lo por coisas boas é extremamente irritante. Francamente, pensei que, pelo senhor ser um formador de opinião, pensasse melhor antes de escrever, mas parece que Juca Kfouri é uma farsa.
Sobre a parte de sua tentativa de cercear a liberdade religiosa, posso dizer que também não o acusei de fazer isso diretamente, mas, sim, que sua coluna contém um certo ranço para cercear a liberdade de expressar as crenças religiosas, para que não haja manifestações de qualquer tipo no campo de futebol. E isso se dá pouco tempo depois das reclamações de algumas associações européias pela manifestação religiosa dos jogadores da seleção brasileira após o apito final da Copa das Confederações.
Concordo que se deva evitar exageros em campo, mas sua coluna é contra qualquer manifestação religiosa – mesmo as mais modestas como apontar para o céu. Essa sua ojeriza exagerada, usando de sua influência para fazer como que uma espécie de campanha pelo fim delas em campo, embora não o torne o executor da medida, o torno [um apoiador] de medidas que cerceiam a liberdade [de expressão - pelo menos em campo] .
As religiões são formadoras de civilizações e por este motivo as manifestações religiosas nem sequer se comparam de longe a merchan de cerveja ou de qualquer outro produto. É tão diferente que a comparação feita se torna pueril. Espero que o senhor sendo jornalista - que deve saber o mínimo de história - não concorde com quem apresente um tão estúpido argumento: Se não pode merchan de produtos, não pode manifestação religiosa.
Em meu último e-mail não coloco em pé de igualdade as manifestações religiosas com as taras sexuais, mas, sim, por uma ser tão superior a outra - pois está na base de nossa civilização – que não deveria haver esta virulência ao querer restringi-las de supostos lugares inadequados, ao mesmo tempo em que se permite - achando lindo e belo - a manifestação sexual em local obviamente inadequado. E novamente digo: “... Se é certo que o campo de futebol não é templo religioso, muito menos é Avenida Paulista cama de motel e boate gay...” No entanto, sua indignação é maior com os religiosos, pois um olhar e mãos para o céu, um “Obrigado Senhor Jesus”, ou um “Jesus me ajudou”, já basta para incitar a sua irritação. É tão grande a inversão dos valores que me espanta o senhor não se dar conta disso. Não estou dizendo que o senhor apóia a Parada Gay, mas o seu silencio respeitoso diz muito.
Finalizando, quero dizer que as manifestações religiosas jamais atrapalharam o andamento do jogo, pois geralmente ocorrem após um gol ou após o final da partida. Usar o argumento de preservar o jogo, de fato, não procede. Usar o argumento de preservar os religiosos dos hereges também não procede, pois o suposto herege estaria com a clara intenção de ofender um religioso, assim como se entrasse com uma camiseta ofendendo a esposa do jogador que beija a aliança. Este seu exemplo mostra que a manifestação religiosa não se compara a merchan, pois pouquíssimas pessoas, talvez ninguém, ficaria ofendido com dizeres “Cerveja é uma farsa”. Claro, o senhor é ateu, na sua mente chamar Deus de farsa [seria curioso e] bonito, agradecê-lo por coisas boas é extremamente irritante. Francamente, pensei que, pelo senhor ser um formador de opinião, pensasse melhor antes de escrever, mas parece que Juca Kfouri é uma farsa.
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(1) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 02 de Agosto de 2009
(2) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 30 de Julho de 2009