terça-feira, 15 de setembro de 2009

Ateísmo, Pueril

Como num giro eterno duma porta sobre o próprio gonzo é a discussão com os loucos e com os desonestos. Não há fim das mesmas palavras, a discussão se prolonga inocuamente para nada dizer; é o giro que não termina sem um repetitivo novo começo.

Assim têm sido as discussões com ateus, principalmente com ateus militantes. As objeções apresentadas têm entrado em livros, na internet, em revistas e feiras literárias, e quem se ocupa em esclarecer equívocos – grosseiros ou não - desvelando embustes que impregnaram o debate, tem se dedicado a uma tarefa inglória a semelhança de Sísifo.

Veja o caso de um famoso ateu militante, Richard Dawkins. Em seu livro “Deus, um delírio”, lemos:


“...O argumento gira em torno da conhecida pergunta: "Quem criou Deus?", que a maioria das pessoas pensantes descobre por si só. Um Deus projetista não pode ser usado para explicar a complexidade organizada porque qualquer Deus capaz de projetar qualquer coisa teria que ser complexo o suficiente para exigir o mesmo tipo de explicação para si mesmo. A existência de Deus nos coloca diante de uma regressão infinita da qual ele não consegue nos ajudar a fugir...”


Paralisar diante dessa pergunta é tomar o obtuso como retilíneo e coerente. Na verdade, a resposta é bastante simples, pois não há regressão infinita. A regressão infinita ocorre quando se desconhece um simples raciocínio: De onde surgiu o ser? O ser criador de tudo não poderia ter sido criado, porque senão, não seria criador de tudo. Então de onde surgiu? Ora, não poderia ter surgido do nada, pois do nada, nada surge; não poderia também ter surgido de algo, pois, se tivesse surgido de algo, significaria que já existia algo antes dele, mas, definido Deus como o ser que a tudo criou, então, se conclui, inevitavelmente, que sempre existiu, é o é, incriado, o que sempre foi, é e será.


Parmênides – há mais de 2300 anos - já anunciava que o ser é ingerado e incorruptível ao perguntar: “Que origem buscaria dele? Como e onde ele teria crescido?” e responde: “é necessário que seja de todo ou não seja absolutamente” e “Um só caminho resta ao discurso: o que o ser é.”(1). O problema todo é posto desta forma: Ou o ser sempre existiu ou nada jamais existiu e, portanto, ainda nada existiria, o que é um absurdo, pois existimos. Deve-se esclarecer também que a existência de Deus se releciona com a existência da realidade.


Um outro problema surge quando se argumenta que para algo existir, necessita de uma explicação para o porquê dela existir, quando, na verdade, uma coisa pode existir independentemente de haver uma explicação para ela. O mesmo raciocínio tosco poderia ser usado para qualquer explicação, necessitando sempre uma explicação para a explicação, ad infinitum. Dessa forma, nunca, ninguém poderia aceitar qualquer explicação para algo sem que houvesse uma outra explicação - mais complexa, segundo Dawkins -, o que nos levaria a nunca ter explicação para nada.


Dawkins apresenta a pergunta e a conclusão induzindo o leitor a aceitá-la como coerente e correta, colocando-o na defensiva, pois não aceitá-la em seus termos é não pertencer ao grupo dos pensantes. Ora, pensar até um cão pensa, difícil é inteligir. A limitação intelectual de Dawkins é apresentada antecipadamente como racional quando, olhando atentamente, não passa de uma conclusão um tanto quanto pueril e irracional. Ele consegue em um pequeno parágrafo cometer erros tão grosseiros que até um pixote nas letras se envergonharia.


Aprender o conceito do que se pretende discutir, mais ainda, saber do que se está falando, é o que se espera de alguém minimamente honesto, não atribuindo a própria limitação intelectual a outros, como se fosse uma posição definitiva sobre o assunto. Começar a argumentar sobre um assunto quando se desconhece a explanação básica sobre ele, ou sequer saber do que de fato se trata, é como se numa discussão sobre computadores, a discussão inteira girasse em torno do que é um sofá e depois se concluísse que computadores não existem, porque sofás não editam documentos do Word. Persistir nessa posição após tomar conhecimento do conceito é obstinada e persistente burrice, ou desonestidade intelectual própria dos vigaristas.


O próprio fato da pergunta ser apresentada vez após vez, não como um raciocínio superado desde os pré-socráticos, mas como um problema insolúvel, demonstra o grau de alienação, ou desonestidade intelectual, que se encontra em ateus militantes. Questões como princípio das coisas, como primeiros princípios, são questões filosóficas com mais de 2500 anos e há um cânon vastíssimo sobre o assunto, infelizmente ignorado pelos ateus.


O problema ocorre quando a discussões sai do particular para entrar no âmbito da discussão pública sem o mínimo preparo dos interlocutores. Desfortuna; analisando a deferência com que certos ateus militantes são tratados, percebe-se que substituíram o filósofo sério pelo pândego tresloucado; densas nuvens para o Brasil.


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(1) O ser em Parmênides é absoluto e uno, sendo, portando, relacionado com a concepção judaico-cristã de Deus.



domingo, 2 de agosto de 2009

Bonito é ser Feio II – Outro e-mail para Juca Kfouri

Um e-mail para Juca Kfouri sobre a coluna “Jesus é uma farsa! ”


Prezado Juca Kfouri,

Li sua coluna “Jesus é uma farsa!(1) em resposta às mensagens recebidas pela anterior coluna “Deixem Jesus em Paz(2). Grande parte de sua coluna sequer tocou nos pontos em que lhe explanei*. Por exemplo, não comparei a manifestação religiosa à manifestação de preferência por uma marca de cerveja, comparação que particularmente acho sem sentido. Comparei, sim, às expressões de afeto entre pessoas [um jogador e sua esposa], ainda que supostamente eu acreditasse que uma fosse fictícia.


Sobre a parte de sua tentativa de cercear a liberdade religiosa, posso dizer que também não o acusei de fazer isso diretamente, mas, sim, que sua coluna contém um certo ranço para cercear a liberdade de expressar as crenças religiosas, para que não haja manifestações de qualquer tipo no campo de futebol. E isso se dá pouco tempo depois das reclamações de algumas associações européias pela manifestação religiosa dos jogadores da seleção brasileira após o apito final da Copa das Confederações.
Concordo que se deva evitar exageros em campo, mas sua coluna é contra qualquer manifestação religiosa – mesmo as mais modestas como apontar para o céu. Essa sua ojeriza exagerada, usando de sua influência para fazer como que uma espécie de campanha pelo fim delas em campo, embora não o torne o executor da medida, o torno [um apoiador] de medidas que cerceiam a liberdade [de expressão - pelo menos em campo] .


As religiões são formadoras de civilizações e por este motivo as manifestações religiosas nem sequer se comparam de longe a merchan de cerveja ou de qualquer outro produto. É tão diferente que a comparação feita se torna pueril. Espero que o senhor sendo jornalista - que deve saber o mínimo de história - não concorde com quem apresente um tão estúpido argumento: Se não pode merchan de produtos, não pode manifestação religiosa.


Em meu último e-mail não coloco em pé de igualdade as manifestações religiosas com as taras sexuais, mas, sim, por uma ser tão superior a outra - pois está na base de nossa civilização – que não deveria haver esta virulência ao querer restringi-las de supostos lugares inadequados, ao mesmo tempo em que se permite - achando lindo e belo - a manifestação sexual em local obviamente inadequado. E novamente digo: “... Se é certo que o campo de futebol não é templo religioso, muito menos é Avenida Paulista cama de motel e boate gay...” No entanto, sua indignação é maior com os religiosos, pois um olhar e mãos para o céu, um “Obrigado Senhor Jesus”, ou um “Jesus me ajudou”, já basta para incitar a sua irritação. É tão grande a inversão dos valores que me espanta o senhor não se dar conta disso. Não estou dizendo que o senhor apóia a Parada Gay, mas o seu silencio respeitoso diz muito.


Finalizando, quero dizer que as manifestações religiosas jamais atrapalharam o andamento do jogo, pois geralmente ocorrem após um gol ou após o final da partida. Usar o argumento de preservar o jogo, de fato, não procede. Usar o argumento de preservar os religiosos dos hereges também não procede, pois o suposto herege estaria com a clara intenção de ofender um religioso, assim como se entrasse com uma camiseta ofendendo a esposa do jogador que beija a aliança. Este seu exemplo mostra que a manifestação religiosa não se compara a merchan, pois pouquíssimas pessoas, talvez ninguém, ficaria ofendido com dizeres “Cerveja é uma farsa”. Claro, o senhor é ateu, na sua mente chamar Deus de farsa [seria curioso e] bonito, agradecê-lo por coisas boas é extremamente irritante. Francamente, pensei que, pelo senhor ser um formador de opinião, pensasse melhor antes de escrever, mas parece que Juca Kfouri é uma farsa.

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(1) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 02 de Agosto de 2009
(2) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 30 de Julho de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Bonito é ser Feio – Um e-mail para Juca Kfouri

Um e-mail para Juca Kfouri sobre a coluna “Deixem Jesus em Paz”


Prezado Juca Kfouri,

Acabo de ler a sua coluna “Deixem Jesus em Paz(1) e me confesso espantado pela sua indignação para com os jogadores que apontam agradecidos para o céu pelo Gol feito, ou dos goleiros pelo Gol não feito. Ainda mais espantado fiquei com a sua menção ao ideólogo comunista Antonio Gramsci. Não quero com este e-mail discutir e dizer que Gramsci é um ideólogo da vigarice, mas apenas mencionar meu espanto ao mencioná-lo como um pensador quiçá benéfico.

Não consigo perceber como pode ser irritante uma pessoa religiosa apontar para o céu em agradecimento pela alegria que sente. Assim como não acho irritante quando um jogador beija a aliança, dedicando seu feito à sua amada. Será que ele está tentando nos impingir seu amor em nossas goelas abaixo? Ainda que eu não acreditasse que a sua amada existisse – o que seria um tanto excêntrico, mas não irritante – nunca o poderia recriminar, quase o proibindo de fazer tão “odioso” gesto. E ainda que os ritos de amor sejam mais bem expressos entre quatro paredes, um beijo para a câmera é inocente e carinhoso para quem o recebe em frente à TV, e, embora não seja para mim – graças a Deus! – não me irrita, nem me constrange.

Poderia dizer o mesmo sobre o alimento; assim como a comida que desfrutamos num restaurante vem das mãos dum garçom e não de Deus, assim também o Gol vem de pés humano. No entanto, os religiosos agradecem pelos dois, agradecem pelas coisas boas que têm em suas vidas, mas quanto às coisas ruins, esperam pacientemente, trabalhando para a situação se inverter. Olhar para o céu agradecendo é tão inocente que não consigo entender a sua irritação.

O que acho mais estranho é que o senhor não é único que pensa assim, pois muitos ao mesmo tempo em que recriminam os olhares e mãos dos jogadores para o céu, consideram a mais pura normalidade, belo, símbolo da tolerância, quando na Parada Gay alguns milhares – talvez milhões - de homens barbados e bombados com roupas de Tiazinha, Madona e Britney Spears, e mulheres com pose de Rambo e Schwarzenegger, saem pela Avenida Paulista beijando-se, mostrando as nádegas peludas, esfregando o falo e os seios uns nos outros em plena luz do dia.

É certo que o senhor é comentarista esportivo, mas jamais o ouvi falar sobre essas coisas publicamente, embora já tenha falado em público sobre assuntos que não tratam de futebol. Se é certo que o campo de futebol não é templo religioso, muito menos é Avenida Paulista cama de bordel e boate gay.

Devo dizer, finalizando, que todo o seu texto tem uma certa coerência dentro de um esquema mental, pois refletem o pensamento de quem se propôs ateu, leitor de Antonio Gramsci, ou ateu em pele de agnóstico.

Espero que o senhor dê atenção a este pequeno comentário e reflita sobre sua posição. Não se irrite com os meninos que só querem dizer: Obrigado Senhor Jesus!
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(1) Coluna Publicada na Folha de São Paulo em 30 de Julho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A doxa como limite da verdade I - 1984

Recentemente dois amigos pediram que eu recomendasse um livro, um bom livro. Resisti ao desejo imediato de recomendar Metafísica de Aristóteles, pois, conhecendo meus amigos, não entenderiam muito da dialética aristotélica e, por isso, recomendei 1984 de George Orwell.

Recomendei 1984 porque lembro-me sempre de uma passagem interessante deste livro e de sua correspondência óbvia – não tão óbvia assim para alguns – com nossos “fatos” jornalísticos, trata-se do Ministério da Verdade. Para quem não lembra – caso não tenha lido, recomendo a leitura – o Ministério da Verdade era responsável por reescrever notícias e documentos de tal forma que eles sempre se adequassem ao desejo do Partido, assim, caso o Partido mudasse de vontade, mudavam-se todas as notícias passadas e documentos para condizer com a vontade atual do Partido.

E qual a sua correspondência com nossa realidade? Bem, embora na prática tais falsificações só seriam eficazes com um controle rígido da informação e das pessoas – como ocorre no livro – ela em parte é feita atualmente, mas duma maneira mais sutil. Trata-se de decidir a verdade antes dos fatos e depois dar aos fatos conotações da verdade planejada, assim, quando sai a notícia, ela já vem carregada de uma interpretação enganosa dos fatos. Pode-se também selecionar e divulgar apenas, ou mais, os fatos que interessam e que podem servir de apoio a verdade planejada, seria mais ou menos uma falsificação em tempo real, reescrevendo os fatos no instante seguinte em que acontecem.

Talvez você esteja pensando: Quando isso ocorreu? Ora, sempre ocorre, e o fato de que você talvez não tenha percebido mostra que são bem eficientes com esse método. Não acredita? Peguemos um caso recente, o caso da menina de Alagoinha.

Segundo o que foi noticiado pelos jornais, a menina abortou os filhos gêmeos de cinco meses devido ao risco de morte que teria caso continuasse com a gravidez e, por isso, o arcebispo de Recife excomungou os médicos e a mãe da menina que autorizou o aborto. Certo? Não, errado! Primeiramente, o arcebispo de Recife não excomungou ninguém, pois para aborto a excomunhão é latae sententiae, ipso facto, o efeito é conseqüência direta da ação em causa, é automática, assim, ainda que hipoteticamente o bispo fosse a favor do aborto, os médicos e a mãe seriam excomungados. O arcebispo limitou-se a informar a excomunhão.

Então, talvez você pense que a Igreja está errada em condenar o aborto e não o estuprador. Certo? Novamente errado, a Igreja condena os dois. Mas, então, por que excomungou apenas os médicos e a mãe, mas não o estuprador? Esse é um questionamento legítimo e que requer uma explicação – explicação esta que não foi dada pelos jornais.

Primeiro, a excomunhão é uma pena eclesiástica, diferente da legislação e penas comuns, e tem um significado pastoral que visa proteger a integridade espiritual e moral dos fiéis católicos e mover o culpado ao arrependimento, despertando a sua consciência para a gravidade do seu ato.

E por que não aplicar a excomunhão para o estupro? Por que os fiéis católicos sabem, sem sombra de dúvidas, que o estupro é um pecado grave e desprezível e, portanto, não há o risco de que a consciência dos católicos fique confusa e desorientada, pensando que o mal é bom. Esse, no entanto, não é o caso do aborto – que moralmente não admite exceção – pois é sabido que médicos, jornais, juristas e a legislação o aprovam, podendo, por isso, levar os fiéis católicos a cometerem o equívoco de pensarem que “o que é legal é lícito, o que a lei aprova ou não pune é moral” (1). A pena eclesiástica, nesse caso, visa manter íntegra a consciência cristã para que não haja confusão entre o que é bom e o que é mau.

Mas talvez você esteja pensando que se tratava de uma menina de nove anos grávida e com risco de morte. Sim, tratava se de uma menina de nove anos grávida, mas o risco de morte pode ser inquirido quanto a sua factualidade. Para não alongar muito este post, aconselho a acessarem o blog do Padre Edson Rodrigues, Pároco de Alagoinha (2). Mas, para ficar apenas numa pergunta: Por que passado alguns meses ainda não se apresentaram as provas reais da "legalidade" deste aborto devidas pelo Hospital ao Conselho Tutelar de Alagoinha?

Note que não se trata de abrandar a pena para o estuprador e penalizar maximamente quem aborta, mas de condenar as duas atitudes. A legislação brasileira se encarrega de punir o estuprador, mas concede exceções legais em casos de aborto. Nesse ponto ocorre a inversão da pena, distorcendo a justiça, pois ao passo que o estuprador é condenado a prisão e não a morte, o bebê por nascer é sujeito a morte mediante o aborto. Não lhe parece uma clara distorção da justiça quando um bebezinho recebe uma pena maior do que a de um estuprador?

As explicações sobre o quadro completo do fato acabam se revelando diferentes do tom com que o fato foi noticiado. Podemos notar também que o que deveria ser exposto como uma pergunta, foi noticiado como uma afirmação, como uma verdade acerca do assunto, a saber, o arcebispo excomungou, a Igreja condena o aborto e não o estupro, a Igreja é insensível, a menina corria risco de morte e etc. Tais afirmações, na verdade, serviram como um embuste para a população.

A verdade que ficou estabelecida foi a interpretação seletiva dos jornais, formando uma doxa que limitou a obtenção, ou compreensão melhor, da verdade.

Diversos fatores influenciam a forma em que a notícia é apresentada, fatores políticos, ideológicos e morais e muito comumente, imorais. Às vezes os valores foram de tal forma distorcidos que o que parece ser justo, o que parece ser uma verdade óbvia, serve apenas a objetivos escusos, formando uma rede de aparências que simula e limita a verdade.

Dado este exemplo e outros que grudam em nossa percepção, vemos que 1984 não é tão fantástico e longínquo como pode parecer a uma primeira leitura, mas nos lembra uma sombra que espreita, persistente, e que não cansa em sua tentativa de restringir a verdade.

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(1) A menina, o aborto e a excomunhão – Padre Francisco Faus
(2) O caso da menina de Alagoinha-PE – O que você vai ler, a imprensa não quis e nem quer saber – Padre Edson Rodrigues

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ad argumentandum I - Esboço para um amigo

Procedere...

A busca de algo só faz sentido quando temos a esperança de que é possível obter, pois, senão, tratar-se-ia apenas de uma tarefa lúdica ou de um prazer masoquista. Certamente é possível empenhar-se por tais praticas, mas pela própria natureza, não seria um esforço sério, no máximo seria um esforço distrativo.

Um dos esforços mais sérios do homem deveria ser o esforço pela busca da verdade, ou melhor, pela compreensão da verdade. Mas um dos principais empecilhos são as barreiras postas pelo sentido da busca. Só buscamos algo quando sabemos algo desse algo, mas se não sabemos nada de algo, sequer nos damos conta de sua existência e, portanto, não buscamos algo, pois o algo seria nada.

Partindo disso, buscamos a verdade porque sabemos algo da verdade. Seria uma tolice dizer que não é possível saber nada da verdade, pois, afirmar a impossibilidade de saber algo da verdade, também não nos permite dizer validamente que é possível saber que não sabemos. Não é valido dizer que é impossível saber algo sobre algo se não sabemos o que é esse algo. Ao definir o objetivo da busca, admitimos que sabemos algo sobre esse objetivo.

Também encontramos aqueles que confundem verdade com mera opinião subjetiva, chamando-a de verdade própria. Esse erro ocorre logo após a conclusão precipitado e contraditória de que não é possível saber algo da verdade, mas como isso não é factível, e visto que sabemos que esse algo existe, então se atribui o algo que sabemos a subjetividade, tornando o algo que sabemos em algo que não sabemos verdadeiramente. Se acreditamos nisso, concluímos obviamente que não sabemos nada, pois o que sabemos não corresponde a verdade, e, se não sabemos nada, incluindo a sua existência, não poderíamos sequer dizer que não sabemos. É uma premissa que se anula.

No entanto, esse tipo de pensamente prolifera em muitas mentes, pois, entrando no loop do raciocínio falso e olhando para a realidade diversa de sua premissa, usa-a como visão da realidade, mas nunca conseguindo ajustar a realidade ao pensamente.

Tal deslocamento de visão se não corrigido - admitindo que a busca seja conscientemente séria - produz o desespero da incerteza. Aqui encontramos a pessoa incerta até de sua própria existência e vivendo num mundo hostil.

Neste ponto de incerteza, ou auto-engano quanto ao real objetivo, o homem vê-se na certeza da incerteza, encerrando a busca - alguns nem chegando a começar - por não haver sentido nela. A certeza da incerteza é uma contradição em si, embora nem sempre percebida pelo o indivíduo, pois produz o raciocínio falso com aparente lógica.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Morre um Homem

Morreu esta semana Clodovil Hernandes. Sentirei a sua falta. Sentirei a falta não só do Clodovil estilista, do Clodovil apresentador, do Clodovil Deputado Federal, mas do Clodovil homem, talvez um dos últimos homens deste país. Não falo dos últimos homens na constituição física e orientação sexual, mas dos homens que traziam consigo a hombridade, aquele homem que conhecemos nas fábulas e nos mitos, aquele homem de caráter, coragem, dignidade... honradez. Alguns "homens" dirão: “O que é honradez?”

Clodovil não possuía a arma literal forjada pelo fogo e pelo ferro, mas possuía o espírito e sua língua aguçada pela realidade não polida.

Clodovil era um dos últimos homens na honra e na fidúcia, não era cínico e covarde, não era medroso. Dizia o que via, sem as máscaras do politicamente correto e da hipocrisia, pois o que vemos no Brasil não é a ilusória realidade dos discursos políticos, das sentenças poéticas do STF liberando amigos banqueiros e corruptos; não vemos decoro no indecoroso, mas vemos o sono de gordos engravatados, empanturrados pelo relativismo moral. Vemos o caos cruel da bandalheira nos altos postos do Governo e da arma bem engatilhada do assalto e do mau-olhado, enquanto fingimos estar tudo bem entre uma morte e outra.

As pessoas deste país são em geral de três categorias: As burras, as medrosas e as cínicas. Clodovil não se encaixava nessa turma bizarra que desfila e desfilará por longos anos pelo nosso Congresso, pelo nosso Senado, pela nossa Presidência, pelo Sambódromo e pela Sapucaí, e pelas ruas, sim, ruas onde os transeuntes são moldados pela turma estúpida de cadeira cativa na TV.

Clodovil falava mal das mulheres? Não, nunca falou! Mas o que Clodovil via e louvava eram as mulheres eretas que trabalham, suam e brigam para criar os filhos com honra e pela honra, mas não via as mulheres tipo BBB, mulher-níquel, mulher-bunda, mulher-axé-funk-fruta, cuja inteligência reside no vale do silicone enquanto esfregam os peitos de plástico no plasma.

Assisti ao julgamento do Clodovil pela TV. Estava passando pelos canais despretensiosamente quando me deparei com o seu julgamento referente a perda do mandato. Torci para que os juízes do TSE permitissem Clodovil continuar como Deputado Federal, permitissem que ele continuasse a dizer e a falar o que este país tem ojeriza ou é burro demais para perceber, a verdade da realidade. Assim o fizeram, mas infelizmente a vida quis outra sentença.

Sim, sentirei falta do Clodovil, porque, sem o Clodovil, sentirei falta de alguém falando a verdade.