Quando o sopro percorre a máscara e morre em ouvidos alheios, percebemos o quão vazias e inócuas se tornaram as palavras, o quão desprovidos de rosto real nós somos e soamos.
A teatralidade nos define de maneira assombrosa, ela nos toma de assalto em cada instante e para cada lado que viramos nossos rostos nos encontramos deuteragonistas, prostrados diante da avareza de sermos quem não somos e quem possivelmente nunca seremos. No entanto, o que no palco é exuberância, na vida é hipocrisia e, por isso, o hipócrita é um simulacro deformante de si mesmo.
A necessidade de representar é a força propulsora do hipócrita, sendo essa necessidade a afirmação do desejo de se tornar, o desprezo pela sua real definição.
Há um aspecto de patético no hipócrita, como um deus castrado, o titã emasculado apenas se recompõe na afirmação falsa da máscara que usa, sabendo-se ao mesmo tempo distante da real feição para qual se move.
Mas pelas máscaras nos definimos, nos moldamos na esperança que a face metálica da hipocrisia nos deforme pelo seu molde, na esperança da simbiose, na esperança que o estático se apegue a nossa carne, tornando parte de nós o fingimento.
É palpável o hipócrita estar tão apegado a sua impostura que acabe crendo que de fato é o que representa, o mecenas da virtude que se propõe.
O hipócrita está mais próximo de nós do que imaginamos, estando ele no casulo que se desenvolve nossas reais motivações, pois onde há o vício, há o hipócrita.
Não é o refrear de fazer o que se não deseja, mas o refrear de fazer o que muito se deseja que estabelece a força moral que impele à virtude. E é neste ponto que o hipócrita se nos apresenta, na impossibilidade da refração há a necessidade da aparência. E por isso também, embora sintamos náuseas do assassino, não temos escrúpulos ao machucar, magoar e mentir a alguém ou de traí-lo pelas costas.
E o hipócrita nos tornamos quando não conseguimos mais distinguir entre a face de sangue e carne e a falsa face da hipocrisia contida em cada frase.