A busca pela verdade tem inspirado homens a conjecturas, a complexos raciocínios e a produção de um vasto cânon sobre o assunto.
Mas a pergunta de Pilatos permanece na estória humana sem a definição do Messias, sem que a pronúncia do deus unigênito permeasse a mente e o espírito do homem cotidiano, sem que os grilhões dos dias se queimassem pelo verbo da Palavra.
Somos cotidianos, pertencemos aos dias, todos os dias. Rejeitar essa noção nos induz ao confronto com a natureza social para o princípio da autoconsciência.
Somos comuns e odiamos a verdade, pois o espelho se volta contra nós, se volta para o horror da pequenez própria da ilusão, ilusão presente ainda que nos mínimos atos.
Nosso cotidiano não necessita da verdade, independe dessa noção complexa e desestabilizadora e, em sua auto-suficiência, as idiossincrasias não lhe são uma benéfica dádiva. Divagar sobre o vasto e o além é paralisar o status do cotidiano para desestruturá-lo.
Evocar ao mancebo o que ele não quer saber é, por vezes, evocar seu ódio e desprezo ao portador, pois invalida e rejeita em sua própria mente qualquer possibilidade de análise. Capricho e gosto se transformam num empecilho para a obtenção do processo, quando rejeitamos uma idéia porque não gostamos dela ou porque julgamos o portador indigno.
O silêncio é a resposta a esta pergunta, pois não importa o que se diga, não importa quão lógico seja o raciocínio ou quão eloqüente seja o orador, nada se dará se não quisermos e se o medo de olhar profundamente para a coisa for o baluarte da nossa certeza. Não há nada a acrescentar quando o obtuso nos domina, quando o limite somos nós.
Não há nada a acrescentar quando somos cotidianos.