terça-feira, 30 de outubro de 2007

Sedes Episcopalis

A praça da Sé é palco e latrina onde meninos e mendigos são talhados por ervas e pedras. Não há famélicos na Sé, não há inocentes, não há coitados ou puros, não há cidadãos. O jardim majestoso da Sedes Episcopalis é feito de réprobos e párias, ornado por pés descalços, trapos e os trapos de seus farrapos.

Impossível é andar naturalmente na Sé, assim como é impossível se esquivar por vezes do perfume da cannabis que perpassa o seu lado Leste. Cada canto é cama, é quintal, é tanque e varal, é piscina e mansão, é mansarda de mendigo. É tudo menos cartão postal, menos minha praça, menos minha cidade.

Ninguém olha em derredor do jardim romano para admirar sua magnificência, mas olha por medo de que alguém se esgueire por seus pertences ou lhe constranja com olhares dúbios e pedidos de esmola.

A reforma redesenhou suas sendas, mas não preencheu os seus caminhos com transeuntes, não atraiu passantes cansados a sentar nos bancos. Fomos proibidos de em seus bancos descansar, não por decreto assinado, mas por velada coação. Tornamo-nos estranhos num lugar em que deveríamos ser próximos, achegados, queridos.

Não é ojeriza ao sacomão, mas esta res, de tão suja, não é publica, é particular de quem a destrói e se destrói.

Hoje a praça me é estranha, longínqua e me ameaça. E tão distante quanto Tibiriçá está do dossel da Catedral, a praça está distante dos paulistanos que, não caminham, apenas medram sobre ela. Quiçá passem velozes em direção ao seu destino.